Um relato sobre depressão.

Caro/a você,
Uma das poucas coisas que nunca imaginei na vida (e olha que eu sou uma serzinha das mais imaginativas) é que eu estaria aqui hoje te contando como tudo aconteceu comigo.

* Por Monalisa Vasconcelos

– O que é a coisa mais corajosa que você já disse na vida?

– Me ajuda.

Caro/a você,

Uma das poucas coisas que nunca imaginei na vida (e olha que eu sou uma serzinha das mais imaginativas) é que eu estaria aqui hoje te contando como tudo aconteceu comigo. E provavelmente jamais faria isso se não acreditasse integralmente no poder que reside em partilhamos as nossas histórias. É quando a gente se abre e se ouve que a gente reconhece a nossa humanidade, que a gente se sente menos sozinho, menos vazio, menos distante do que acontece lá no canto mais profundo da gente. Então, o meu único objetivo aqui hoje é que a gente se veja e se toque, sem filtros.

Meu nome é Monalisa. Em 2020 fui diagnosticada com depressão pelo Dr. Alexandre. Depois de dois anos de tratamento, recebi alta da medicação. E, em dezembro de 2022, ele me fez o convite de escrever um depoimento pro blog da clínica. “Pensei em você porque sua experiência foi super exitosa e pode servir de exemplo para outras pessoas”: essas foram as palavras dele. Sem pensar muito (o que também é bem incomum pros meus padrões), resolvi aceitar. Mas não pelas mesmas razões que impulsionaram o convite. Sabe, eu acho que a gente já ostenta demais da conta a partilha dos nossos êxitos (ou da imagem que cultivamos do que eles significam) e isso só tem piorado o quadro das nossas dores internas – que ficam cada mais exiladas no quartinho escuro das nossas grutas mais obscuras. Até que um dia elas nos implodem e desmoronamos diante dos nossos próprios olhos. Foi assim comigo, pode ser que isso esteja acontecendo com você agora e te prometo: não tenho a menor intenção de ser exemplo ou de mostrar como fui bem-sucedida nessa jornada. Não vou dar dicas de superação e espero escapar de frases motivacionais. Na maior das minhas esperanças, o que eu quero é poder te dar a mão no seu pior momento trazendo à tona o meu pior também. Que nada nos afaste.

Assim, descarada e despida, começo te contando o que rolou na nossa primeira consulta. Depois de, sei lá, uma hora, uma hora e meia de “conversa”, veio o diagnóstico: Monalisa, o quadro que você está apresentando é de uma depressão grave e precisaremos iniciar um tratamento. Aquele momento pra mim soou como uma sentença. Olhei bem nos olhos do médico e do meu abismo mais horroroso saiu uma voz que disse assim: “Doutor, o que senhor está me dando é um atestado de falência como ser humano”. Ele deve se lembrar disso. Eu, da minha parte, acho difícil esquecer. Tanto pela dor que eu senti quanto por tudo que eu enxerguei sobre mim mesma por causa dessa frase. Mas não foi logo de cara. Isso ainda demoraria mais algumas semanas.

Saí do consultório com uma receita de antidepressivo nas mãos. Guardei e jurei que jamais usaria aquilo. É preciso fazer um parênteses aqui pra dar uma pequena dimensão do meu contexto de vida naquele momento: nascida e criada em Juiz de Fora, depois de formar em jornalismo, me mudei pra São Paulo em 2009 com o sonho de me tornar atriz. Em 2020, quando a pandemia estourou, eu tinha um cargo público como coordenadora de um teatro da secretaria municipal de cultura, estava em cartaz com duas peças de teatro, vinha de um 2019 com reconhecimentos super bacanas no âmbito do meu ofício, desenvolvia meus trabalhos espirituais e sociais… tinha toda uma vida estruturada na cidade nesses dez, onze anos depois da minha chegada totalmente às cegas nesse lugar. Esses anos de São Paulo sempre foram uma luta indescritível, muito solitária, cheia de revezes e não foram poucas as vezes em que eu havia pensado em “desexistir”. Mas, com o passar do tempo, e as conquistas (internas e externas) sendo delineadas palmo a palmo, naquele momento eu tinha um certo sentimento de que estava, por fim, conseguindo construir algo de concreto, duradouro e próprio. Durante os primeiros meses da pandemia, o trabalho aumentou, me envolvi em várias campanhas de auxílio às famílias mais carentes, criei novos projetos artísticos, fiz um monte de live pro teatro… até que, sem perceber como, de um dia pro outro, entre as paredes daquele meu studio de 30m², eu comecei a perder a memória, a perder força (literalmente) de ficar em pé, me vi a dormir e acordar chorando ininterruptamente por semanas e completamente sem vontade de continuar vivendo. Pouco tempo depois, na segunda tentativa da minha família de me resgatar desse estado, eu me vejo de volta a Minas, com 36 anos, completamente devastada emocionalmente, tendo que virar as costas pra tudo, com o pensamento oscilando num paradoxo entre “eu não construí nada de válido” e “vou perder tudo o que eu construí”. Outro fator era a minha mediunidade. Do que jeito que eu estava era como se tivesse aberto um portal cavalar à toda sorte de perturbações e obsessões que agravaram muito essa situação.

Aí, quando eu escuto “depressão” foi como se aquilo chancelasse o sentimento de que apesar de todo esforço, renúncia e dedicação, no fim das coisas eu “dei errado”, “não consegui”, “falhei”, “voltei pior do que quando fui embora”. Sentia vergonha de estar na casa dos meus pais de volta, vergonha da minha fraqueza, da minha agora indisfarçável vulnerabilidade. Quem, ainda mais nos dias de hoje, quer ser vista como um fracasso? Calma, muita calma. Eu não estou dizendo que a depressão seja isso. Eu quero dizer (e essa é a grande questão) que, dominada por ela, isso era tudo o que eu conseguia enxergar. E é nesse ponto que o jogo começa a virar.

O Dr. Alexandre não sabe, vai saber quando ler esse texto, eu demorei semanas pra começar a tomar o remédio. Eu tinha muito medo do que ele poderia me causar e uma birra homérica da psiquiatria, da extensa medicalização presente em nossos tempos. Além disso, anos atrás, escrevi uma peça de teatro inspirada no dilacerante livro “Holocausto Brasileiro” (da também juizforana, a maravilhosa Daniela Arbex) e na ocasião eu estudei muito sobre o marketing da loucura pra poder falar daquele universo dos manicômios enquanto calabouços de eugenia social e crueldade assistida. Então, na minha cabeça eu tinha sido capturada pelo inimigo. Logo, me recusei drasticamente à medicação.

Acontece que meu quadro só piorou. Eu tinha cada vez menos força pra viver, pra comer, pra sair da cama, os ataques espirituais (sobretudo a noite) cada vez mais severos. Eu realmente fui até a última gota na tentativa de conseguir sair daquela situação com as minhas próprias forças e eu não consegui. Até que chegou o dia em que eu vi que realmente precisava de ajuda, precisava tentar alguma coisa que me desse força pelo menos pra sair da cama. Foi aí que comecei a tomar a medicação. E foi aí que eu comecei a perceber que a partir da ação da medicação no meu corpo era como se o meu cérebro tivesse começado a fabricar novas substâncias, ou velhas substâncias há muito paralisadas. Aos poucos, eu comecei a perceber que diante das “mesmas perguntas” estava sendo capaz de “dar respostas diferentes”. Algum tipo de padrão cíclico estava sendo rompido.

Alguns dias depois, a tempestade interior começou a dar os primeiros sinais de estiagem. Com meu céu interno menos nebuloso, me lembrei do que havia dito na primeira consulta e comecei a me perguntar: Meu Deus, se alguém me dissesse que tem depressão e me pedisse ajuda, a última coisa que eu diria a essa pessoa é que ela falhou como ser humano. Se fosse essa pessoa um amigo, um familiar ou mesmo um desconhecido, eu acolheria a sua dor e moveria mundos pra ajudá-la. Por qual razão, se é comigo, sou tão cruel e impassível? Por que me acredito menos merecedora de compaixão e auxílio? E mais: se qualquer um de nós está sujeito a adoecer do que quer que seja, por que eu acredito que quando é com o outro “tudo bem”, mas quando é comigo “não”? Quão melhor eu estou me julgando ser em relação a qualquer outro ser humano?

E é por isso que eu te disse que gostaria de te mostrar o meu pior. Porque foi também através dele que comecei a – aí sim – a ter condições de me movimentar internamente e voltar a viver. Na queda do meu Olimpo, da segurança da imagem que havia feito de mim mesma, fui obrigada a encarar que caminhava junto à toda aquela dor e desmoronamento, uma trinca fatal pra qualquer processo de cura e autoconhecimento: orgulho, vaidade e um extenso combustível de autodestruição. Não estou dizendo que essa seja o seu caso, estou dizendo que foi o meu. E que eu precisei enxergar isso.

E é também exatamente por isso que comecei esse texto com um trechinho de uma animação que vi esses dias no Instagram. Um menino caminha em um cenário coberto de neve com três animais. Ele pergunta “qual foi a coisa mais corajosa que você já disse?”. E um deles responde: “help”, ou “me ajuda”. E o que aconteceu comigo, meus amigos, é que eu me expus a ir longe demais na dor pra conseguir ter a coragem de dar esse passo. Pedir e aceitar ajuda. A verdade é que depois desse movimento, eu vi que provavelmente eu fui depressiva a vida inteira. A verdade é que apesar de extrovertida, comunicativa, alegre, a melancolia sempre me acompanhou. Eu caminhei a vida inteira encobrindo com elogios, notas altas, perfeccionismo, performance impecável e excesso de produtividade o rombo horrível que eu carrego no peito, o flerte constante com o suicídio. Eu fui me tornando “imparável”, acreditando fazer isso em nome da construção de mim mesma, do meu legado, do meu quinhão de sucesso (material e espiritual). Mas isso era só metade da verdade. Essa metade encobriu por tempo demais o medo absurdo que eu tinha de em algum momento ter que lidar com aquela sombra insondável dentro de mim. E isso tem um preço muito alto. Muito alto.

Durante o período do tratamento, muitas coisas aconteceram na minha vida, outros tantos ganhos e perdas. E eu poderia ter seguido nesse texto os caminhos das coisas que eu fiz nesse processo pra “dar a volta por cima”, mas acredito que incorreria no mesmo erro em que estamos insistindo de só editar o enredo das nossas vidas no campo das experiências externas, quando na verdade é dentro da gente que o bicho pega. Eu realmente sinto que a gente precisa começar a olhar pra nossa vida interior muito mais carinho, honestidade e humanidade. Até porque, quanto melhor e mais amplamente nós fizermos esse movimento, mais vamos perceber que a saúde mental precisa ser vista para além do indivíduo e da sua dor. Ela é de todo mundo. É tão humana quanto fome. Porque ninguém está imune e talvez seja através dela – da dor – que a gente consiga descobrir um novo jeito de ser e de existir nesse planeta. Tem um filósofo indiano que me toca profundamente, Jiddu Krishnamurti. E concordo em absoluto quando ele diz que: “não é sinal de saúde estar bem adaptado a uma sociedade doente”. Parte da nossa dor é, sim, um sinal claro de que precisamos dar novos rumos coletivos ao modo como encaramos o que se passa dentro da gente e o quanto a vida que a gente vem aceitando viver é corrosiva, venenosa e opressora. Os dados de depressão, suicídio, ansiedade… no Brasil e no mundo gritam por si e não estamos olhando pra isso com a atenção devida. Isso tem um preço muito alto. Muito alto. E estamos todos pagando por ele.

Bom, fiz todo o tratamento psiquiátrico, entrei na terapia, fiz uma série de coisas, mas não há um dia sequer que essa luta pela integridade do meu ser não esteja me esperando pro café da manhã. O rombo no meu peito não diminuiu, a diferença é que agora ele tem tanto espaço pra ser ouvido quanto o meu riso frouxo, que eu adoro. Custou e custa todos os dias querer e saber que existe sim uma forma melhor de viver nesse mundo. Mas realmente acredito que o verdadeiro salto dessa conquista só pode ser dado no compromisso de cada individualidade nessa causa que é sim tão coletiva quanto urgente.

Então, com tudo isso, caro/a você, eu espero que você não siga meu exemplo. Que você não espere se ferir como eu me feri (e permiti que me ferissem) até ter a coragem de pedir ajuda, de dar um tempo, de dizer “chega, eu não aguento mais”. Eu espero que você possa ter mais compaixão com seus sentimentos do que tive pelos meus até hoje. Eu espero que você consiga identificar seus limites antes de violá-los completamente. Eu espero que você sinta que pode conversar com alguém sobre suas fraquezas e que não precise se obrigue a ser incrivelmente foda o tempo todo pra se sentir amado ou amada. Eu espero que nem você, nem ninguém que você ame, tenha passado ou precise passar por tudo isso. Mas se for esse o caso, só saiba que você não está sozinho/a. Peça e aceite ajuda. E recomece. Estamos todos – uns mais, outros menos cientes disso – estamos todos renascendo nesse momento.

Um abraço carinhoso pra você,

Mona.

(@mona.vasconcelos)

Você sabia que doenças endocrinológicas podem se associar a Saúde Mental?

Alterações do comportamento podem ser facilmente encontradas na população e, muitas vezes, podem ser os primeiros sinais de alterações hormonais.

* Por Dra. Mariana Ferreira

Você sabia que doenças endocrinológicas podem se associar a saúde metal?

Alterações do comportamento podem ser facilmente encontradas na população e, muitas vezes, podem ser os primeiros sinais de alterações hormonais. Apesar de não necessariamente uma causar a outra, é possível haver uma associação entre doença endocrinológica e psiquiátrica.

Um exemplo bastante comum é o hipotireoidismo e a depressão. A depressão pode ser um sintoma de um quadro de hipotireoidismo não diagnosticado ou com tratamento inadequado. Por esse motivo, a Associação Americana dos Endocrinologistas Clínicos indica considerar o diagnóstico do hipotireoidismo em todo paciente com depressão.

Já o hipertireoidismo, que é o excesso de produção de hormônios da tireoide, pode levar a sintomas como nervosismo, tremores, fala rápida, labilidade emocional, agitação. Esses sintomas são semelhantes aos do transtorno de ansiedade.

Outra associação frequente é do diabetes mellitus e a depressão. O diagnóstico de diabetes tem aumentado e acomete 9,1% da população. Muitos casos não são diagnosticados, entre outros motivos por ser uma doença sem muitos sintomas. Entre as pessoas com diabetes, a depressão é encontrada 3 a 4 vezes mais do que na população geral. E tanto o diabetes pode desencadear um episódio depressivo quanto o contrário.

Essas foram apenas algumas das doenças que podem ter associação da Psiquiatria com a Endocrinologia. O acompanhamento profissional adequado permite a detecção de forma precoce dessas doenças.

Referências:

– Miguel, E.C. et al. Clínica psiquiátrica: as grandes síndromes psiquiátricas, volume 2; Manole, 2021.

– Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Análise em Saúde e Vigilância de Doença Não Transmissíveis. Vigitel Brasil 2021: vigilância de fatores de risco e proteção para doenças crônicas por inquérito telefônico. Brasília: Ministério da Saúde, 2021

Quando devo procurar um neurologista?

Saiba quais são as principais doenças tratadas por essa especialidade e conheça os sinais que indicam a necessidade de consulta com um neurologista.

* Texto por Helen Lima em entrevista ao Dr. Danilo Silva, Neurologista.

Quando devo procurar um neurologista?

Saiba quais são as principais doenças tratadas por essa especialidade e conheça os sinais que indicam a necessidade de consulta com um neurologista.

Neurologista é o médico responsável por realizar o diagnóstico e tratamento de doenças que danificam as estruturas do sistema nervoso: cérebro, medula espinhal e nervos. As patologias mais comuns são as cefaleias (dores de cabeça), distúrbios de movimento (como Parkinson), acidentes vasculares cerebrais (AVCs), crises convulsivas e demências (como Alzheimer).

Por se tratar de uma especialidade que cuida de doenças, no geral, mais graves, é comum que haja receio e até mesmo medo de procurar um neurologista. Porém, o diagnóstico precoce pode ser um recurso fundamental no tratamento e na melhoria da qualidade de vida dos pacientes. Por isso, convidamos o Dr. Danilo Jorge da Silva, Neurologista da Clínica Rezende, para explicar quais são os sinais de alerta que indicam a necessidade de uma consulta. Confira!

Quais sintomas devem ser avaliados por um neurologista?

 “O neurologista deve ser consultado sempre que se observar fortes dores de cabeça, fora do padrão habitual”, aponta o especialista. Ele também ressalta a demanda de avaliação médica após crises convulsivas, alterações súbitas ou não nos movimentos dos membros e na fala, bem como prejuízos persistentes na memória, que prejudicam as atividades habituais do indivíduo.

O Dr. Danilo explica que nem sempre é simples diferenciar sintomas de ordem neurológica e psiquiátrica: “de forma resumida, chamamos de distúrbio de natureza psiquiátrica aqueles em que não há dano estrutural quantificável nas estruturas do sistema nervoso, mas sim, alterações na forma como elas funcionam”, destaca, reforçando a importância de uma orientação médica para proceder com a terapia adequada.

É possível prevenir doenças neurológicas?

Como já vimos neste artigo, as patologias tratadas por um neurologista são diversas, mas o especialista evidencia os cuidados com a doença que causa os maiores índices de mortalidade e sequelas, o AVC. “As principais medidas de prevenção são a manutenção de uma dieta equilibrada, atividade física regular e devidamente supervisionada, controle do colesterol e monitoramento de doenças crônicas, como hipertensão e diabetes”.

O Dr. Danilo finaliza suas recomendações relembrando um “vilão” já muito conhecido entre os pacientes: o tabagismo. “O cigarro representa um dos principais fatores de risco para um acidente vascular cerebral”.

Fique atento ao seu estilo de vida, observe os sinais de alerta, de que forma eles influenciam em suas atividades cotidianas e, no caso de persistência dos sintomas, deixe o receio de lado e procure ajuda médica.

Depressão em crianças e adolescentes

Entenda as particularidades da doença nessa faixa etária e saiba qual é o momento de procurar ajuda profissional.

* Texto por Helen Lima em entrevista ao Dr. Lucas Magalhães, Psiquiatra Infantil.

Depressão em Crianças e Adolescentes

Entenda as particularidades da doença nessa faixa etária e saiba qual é o momento de procurar ajuda profissional.

Humor triste, alterações no ciclo do sono, perda de energia e desinteresse pela maioria das atividades durante um período maior do que duas semanas são algumas das manifestações mais comuns da depressão. Segundo um estudo realizado pela Faculdade de Medicina da USP, 36% das crianças e adolescentes apresentaram sintomas da doença durante a pandemia. O levantamento foi realizado virtualmente com cerca de 6.000 voluntários entre 5 e 17 anos. Os pais devem ficar atentos aos sinais específicos que a depressão apresenta nessa faixa etária.

De acordo com o Dr. Lucas Magalhães, Psiquiatra infantil da Clínica Rezende, uma diferença significativa é que a irritabilidade pode ser um sintoma mais evidente em crianças e adolescentes no lugar da tristeza. Ele também reforça o alerta quando os pequenos deixam de ganhar peso, já que esse aumento é esperado durante a fase de crescimento.

Impactos da depressão em crianças e adolescentes

A depressão afeta de forma global a vida do paciente e de seus familiares, impactando diversos núcleos como a escola, as amizades, a igreja, entre outros. O Dr. Lucas conta que é comum os pais se preocuparem em maior grau com os efeitos da doença no desempenho escolar dos filhos, o que é esperado, já que esse distúrbio causa a redução da capacidade de concentração.

Ele explica que esse problema pode ser revertido com o tratamento adequado e reforça que outras repercussões merecem mais cuidado, como o prejuízo emocional e a perda de vínculos afetivos desencadeada pela depressão. “Por vezes, a falta de entendimento da família vai enfraquecendo as relações de uma maneira que pode levar a complicações da doença no lugar de favorecer o paciente”.

O psiquiatra diz que a recuperação das relações sociais de uma criança ou adolescente com depressão depende de um esforço mútuo, reforçando o papel fundamental da família na tarefa de restabelecer a saúde mental do paciente, com muita resiliência e generosidade.

O momento certo de buscar orientação médica

Crianças e jovens depressivos passam por uma mudança de hábitos e comportamentos. A convivência, antes normal, se torna tediosa e por vezes turbulenta nos mais diversos ambientes. É sobre essa alteração da rotina que o Dr. Lucas Magalhães faz sua principal observação: os pais que estabelecem boas relações conseguem perceber mais facilmente quando os filhos estão em sofrimento.

“Os pais devem se preocupar em criar um bom canal de diálogo, de forma que seus filhos se sintam ouvidos. É preciso que os familiares sejam capazes de reconhecer os sinais da doença menos no que os médicos dizem e mais no que os filhos manifestam”.

O psiquiatra conclui afirmando que o melhor caminho para a recuperação de crianças e adolescentes com depressão é a abordagem precoce e humana, realizada de forma integrada entre profissional de saúde e familiares.

Se você está percebendo algum desses sinais em seu filho e possui dúvidas de como proceder com o tratamento, conte com o auxílio de um profissional especializado em saúde mental.

Fonte: https://jornal.usp.br/atualidades/pandemia-e-responsavel-por-cerca-de-36-dos-casos-de-depressao-em-criancas-e-adolescentes/

Como as experiências influenciam no desenvolvimento na primeira infância e a importância do vínculo entre pais e filhos

As experiências emocionais e o estabelecimento contínuo e permanente dos vínculos atuarão na estrutura neurobiológica da criança, com a modelação de circuitos neuronais, resultando em reforços ou modificações de comportamentos.

* Por Ana Carolina Meneghin

Os primeiros anos de vida são marcados pela surpreendente aquisição de habilidades físicas, sociais, cognitivas, linguísticas e psicoemocionais. É ainda nesse período que se inicia a construção da personalidade e da individualidade da criança, participando desse processo o encontro entre a constituição genética e os estímulos ambientais aos quais será exposta. Portanto, tendências comportamentais podem ser reforçadas ou não pelo contexto externo, contribuindo para sua perpetuação ou para sua interrupção.

Em se tratando de fatores ambientais, um dos pontos mais relevantes é a construção de uma relação afetiva entre o bebê e os principais responsáveis pelo seu cuidado, notadamente a mãe e, em um segundo momento, o pai. As experiências emocionais e o estabelecimento contínuo e permanente dos vínculos atuarão na estrutura neurobiológica da criança, com a modelação de circuitos neuronais, resultando em reforços ou modificações de comportamentos. A consistência da modelação da estrutura neuronal dependerá da qualidade e da persistência dos estímulos externos, favorecendo o desenvolvimento emocional e intelectual nos primeiros anos de vida.

A experiência de relacionamentos saudáveis na primeira infância é de suma importância para o desenvolvimento humano, sendo capaz de gerar aprendizados sociais e afetivos, consolidar valores e estimular habilidades cognitivas. A criança necessita de interações positivas e de qualidade com pessoas comprometidas com sua saúde e bem-estar (seus cuidadores), pois essas interações são capazes de promover uma base sólida para o seu desenvolvimento integral.

A construção de vínculos seguros pode parecer natural, porém, necessita atenção por parte dos cuidadores, que devem se mostrar continentes às necessidades das crianças, agindo de forma confortadora, acolhedora e responsiva. É a segurança dessas relações que permitirá o desenvolvimento de uma criança progressivamente segura e autônoma, capaz de explorar o mundo e de retornar à sua base na presença de desconfortos, sofrimentos e decepções, pois sabe que ali encontrará acolhimento e conforto. Através da construção da resiliência, os relacionamentos auxiliam no desenvolvimento da capacidade de superar dificuldades e de adaptar comportamentos em resposta.

Se, persistentemente, os cuidadores não se mostram disponíveis para atender às necessidades da criança ou não conseguem identificá-las, o vínculo pode ser frágil, dando lugar para o desenvolvimento futuro de problemas emocionais, comportamentais e, até mesmo, cognitivos. Pais que apresentam condições físicas, emocionais, sociais ou econômicas desfavoráveis podem ter dificuldade no estabelecimento de uma interação segura com seus filhos, que, estatisticamente, tendem a ter mais problemas de comportamento, de relacionamento e de desempenho escolar.

Portanto, a construção de uma relação afetiva sólida entre pais e filhos é de fundamental relevância para o desenvolvimento da criança. Essa construção se mantém por todas as fases de vida do ser humano, devendo ser cuidada com respeito e empatia, permitindo falhas e acertos, diálogos e silêncios.

Impulsividade na adolescência: o que esperar e quando procurar ajuda profissional.

A adolescência é conhecida em várias culturas como uma fase da vida desafiadora, tanto para os adolescentes quanto para os pais ou responsáveis…

* Por Sabrina Gomes

Impulsividade na adolescência: o que esperar e quando procurar ajuda profissional.

A adolescência é conhecida em várias culturas como uma fase da vida desafiadora, tanto para os adolescentes quanto para os pais ou responsáveis. Alguns mitos sobre a adolescência podem dificultar a compreensão sobre essa fase da vida e fazer com que oportunidades de desenvolvimento sejam pouco exploradas. Além disso, a falta de informação pode impedir o acesso a intervenções que podem contribuir para trajetórias de vida mais positivas.

Um mito comum é o de que a adolescência não passa de uma etapa de imaturidade e que os adolescentes só precisam crescer. Assim, caberia aos pais apenas tolerar essa fase. Ao contrário disso, a adolescência representa um período de muitas possibilidades de aprendizagem, sendo de extrema importância a participação ativa dos pais no cotidiano do adolescente, auxiliando-os no enfrentamento de problemas e promovendo o desenvolvimento de habilidades socioemocionais.

A seguir, vamos esclarecer algumas questões relacionadas com a impulsividade na adolescência, com o objetivo de ajudar na compreensão do que é esperado para essa faixa etária e sobre quando procurar ajuda profissional.

Impulsividade na Adolescência

A adolescência é uma fase marcada pela busca por autonomia e por tentativas de construção da própria identidade. Nessa etapa da vida, o cérebro ainda não atingiu a maturidade plena, o que torna possível que o adolescente apresente momentos de clareza e responsabilidade em suas ações, bem como comportamentos impulsivos e de oposição. Comportamentos impulsivos são tomadas de ação na ausência de intenção, questionamento e decisão. Envolve reação rápida e não planejada diante de um estímulo interno (uma emoção, por exemplo) ou externo (resultado de um jogo ou a atitude de alguém, por exemplo) sem considerar possíveis consequências negativas dessa reação.

O comportamento impulsivo é bastante frequente na adolescência e pode ser explicado com base na neurobiologia do desenvolvimento cerebral, uma vez que a inibição (“freio”) do comportamento impulsivo está relacionada com a parte do cérebro que mais leva tempo para se desenvolver, o córtex pré-frontal.

O córtex pré-frontal, a parte frontal (da frente) do cérebro é a que se desenvolve mais tarde. Essa área também é chamada de parte executiva do cérebro e é responsável pela análise e julgamento das situações e pelo planejamento e controle dos impulsos. Isso pode explicar porque crianças e adolescentes apresentam dificuldades para controlar seus comportamentos. Durante a adolescência, acontece um aumento no desenvolvimento do cérebro como um todo, mas as regiões relacionadas ao autocontrole não estão completamente desenvolvidas.

Alguns pesquisadores consideram que é por volta dos 17 anos de idade que os adolescentes apresentam maior eficiência no controle cognitivo e diminuição importante de comportamentos problemáticos e de risco. Também é quando apresentam mais comportamentos orientados por metas e objetivos.

Assim, a tendência aumentada a atos impulsivos na adolescência faz parte do processo de desenvolvimento. A busca por sensações e o contato com novas experiências pode aumentar o repertório de habilidades sociais e de resolução de problemas do indivíduo. Entretanto, comportamentos impulsivos podem incluir o uso de substâncias psicoativas, como o álcool, o envolvimento em situações de risco e comportamentos de autolesão, o que requer atenção. A duração, a frequência e curso desses comportamentos no desenvolvimento do adolescente podem indicar um comportamento patológico que merece avaliação.

Impulsividade e transtornos mentais: quando procurar ajuda profissional?

A impulsividade normalmente está associada a desfechos negativos, tais como o uso de álcool em adolescentes, risco de acidentes, comportamentos autolesivos e baixo rendimento escolar. O consumo excessivo de álcool na adolescência, por exemplo, ocorre, em parte, por uma característica da impulsividade, que é a busca por sensações. Por isso, práticas parentais de supervisão e orientação são essenciais. É importante observar a frequência e a intensidade de comportamentos impulsivos e de risco. Esses dados são importantes para avaliar se os comportamentos são esperados ou se podem ser considerados patológicos.

Alguns transtornos se caracterizam pela presença de impulsividade e de problemas no autocontrole das emoções e/ou da conduta, como o Transtorno de Oposição Desafiante (TOD), que é caracterizado por um padrão persistente de humor irritável/raivoso e comportamento questionador e desafiante. Deve-se considerar que comportamentos questionadores e de oposição são comuns na adolescência, por isso, a frequência e a intensidade dos comportamentos devem ser investigadas para diferenciar o comportamento esperado para a faixa etária do que pode ser um transtorno mental.

O Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) envolve níveis prejudiciais de desatenção e também pode estar associado a comportamentos hiperativos e impulsivos. Nesse transtorno, os comportamentos impulsivos envolvem dificuldades para esperar a sua vez, responder perguntas antes de terem sido finalizadas, pouca tolerância à frustração, assumir riscos desnecessários e problemas para seguir regras/instruções.

Apesar de os comportamentos impulsivos serem comuns na adolescência, é muito importante considerar se tais traços ocorrem com maior frequência e intensidade que o comum. Nos casos em que se observa sofrimento e prejuízos (na escola, no trabalho e/ou nas relações sociais, por exemplo), a avaliação profissional é indicada para melhor compreensão do caso e para o planejamento de intervenções que possam promover mudanças e impedir que o quadro se agrave.

Referências

  • Reis, A. H. (2017). Impulsividade, delinquência e comportamento disruptivo: intervenção na adolescência. In C. Neufeld (Orgs.), Terapia Cognitivo-Comportamental para Adolescentes: Uma Perspectiva Transdiagnóstica e Desenvolvimental (pp. 188-214). Porto Alegre: Artmed.
  • Oliveira. J. B. A. (2017). Desenvolvimento infantil: o que desenvolve?. Brasília: Instituto Alfa e Beto

Você sabe lidar com as emoções das crianças?

Precisamos ensinar a criança sobre suas emoções e, para isso, é necessário permitir, validar o que ela está sentindo. O sentimento da criança precisa ser acolhido, senão mostramos para ela que o que ela sente não tem valor.

* Por Carolina Conti

Desde pequenos somos capazes de aprender a cuidar da nossa saúde emocional. E os pais ou responsáveis são modelos e podem e devem ajudar as crianças a fazerem isso.  Mas como?

As emoções são manifestações corporais que ocorrem na interação entre a criança e seu ambiente. Elas nos ajudam na sobrevivência e nas dificuldades do dia a dia. Tudo o que sentimos é natural do ser humano, mesmo aqueles sentimentos mais incômodos, como a raiva, o medo, a tristeza… Esses sentimentos sinalizam para o nosso corpo que é hora de usar alguns recursos para enfrentar situações. Por exemplo, diante de um perigo iminente, sentimos medo e apresentamos respostas fisiológicas e comportamentais devido à antecipação a esse perigo. Ficamos mais alertas à situação e muitas vezes precisamos fugir para não nos colocarmos em risco.

Ao invés de falar “não precisa ficar triste” ou “você não pode ficar bravo com seu irmão”, por que não usamos “percebo que você está mais calado e que está triste” ou “entendo que está bravo, mas bater machuca o seu irmão”? Muitas vezes o que precisa ser limitado é o comportamento da criança, caso este seja indesejado ou inadequado.

Outro ponto importante é criar oportunidades para a criança estabelecer relações sociais e interagir com pessoas variadas, aprender a resolver problemas e lidar com a frustração. Dessa forma, ajudamos nossas crianças a desenvolverem um repertório social e emocional mais forte e saudável.

Agora, para ensinar isso às crianças é preciso saber e fazer. Já ouviu aquela frase “a palavra convence, mas o exemplo arrasta”? Então, os pais que priorizam sua saúde física e emocional, mantém uma boa alimentação e cultivam boas relações, serão modelos importantes no cuidado da saúde emocional.

E você, acolhe suas emoções?

Carolina Conti -Psicóloga Infantil – CRP 04/29510

Transtornos Mentais em Crianças e Adolescentes

Pode-se dizer que múltiplos elementos determinam a saúde mental dos adolescentes. Quanto mais expostos aos fatores de risco, maior o potencial impacto negativo nos aspectos emocionais dessa faixa etária.

* Por Dr. Alexandre de Rezende

Transtornos Mentais em Crianças e Adolescentes

A adolescência é um período crucial para o desenvolvimento e manutenção de hábitos sociais e emocionais adequados para o bem-estar mental. Esses hábitos salutares incluem a adoção de padrões convenientes de sono, exercícios regulares, desenvolvimento de habilidades para o enfrentamento e resolução de problemas, além de aprender a manejar as emoções. Ambientes de apoio na família, na escola e na comunidade em geral são muito importantes para um desenvolvimento saudável.

Fatores de risco

Pode-se dizer que múltiplos elementos determinam a saúde mental dos adolescentes. Quanto mais expostos aos fatores de risco, maior o potencial impacto negativo nos aspectos emocionais dessa faixa etária. Entre os determinantes que contribuem para o estresse durante esse momento de vida estão o desejo de uma maior autonomia, pressão para se enquadrar em grupos, acesso e uso indevido de tecnologias. Alguns adolescentes estão em maior risco de problemas de saúde mental devido às suas condições de vida, estigma, discriminação ou exclusão, além da falta de acesso a serviços de saúde e apoio de qualidade.

Dentre os comportamentos de risco adotados por adolescentes, o uso nocivo de substâncias, tais como álcool e outras drogas, são as principais preocupações na maioria dos países. Além de que o uso de substâncias entre adolescentes aumenta a probabilidade de riscos adicionais, como a prática de sexo inseguro.

Em todo o mundo, estima-se que 10 a 20% dos adolescentes vivenciam problemas de saúde mental, mas permanecem diagnosticados e tratados de forma inadequada. Sinais de transtornos mentais podem ser negligenciados por uma série de razões, como a falta de conhecimento ou conscientização sobre saúde mental entre trabalhadores da saúde ou o estigma que os impede de procurar ajuda.

Tratamento

Um tratamento eficaz inicia-se com um diagnóstico bem estabelecido. Por essa razão, é fundamental que os profissionais da saúde estejam aptos a avaliar crianças e adolescentes a fim de identificar possíveis alterações sugestivas de doenças psiquiátricas.

O profissional que avalia crianças e adolescentes deve ter o conhecimento do seu desenvolvimento normal. Assim, pode diferenciar o que é ou não esperado para cada idade. Como exemplo, uma criança de 5 anos com desenvolvimento normal pode falar com seu “amigo imaginário” e referir que ouve sua voz, mas a mesma situação envolvendo um adolescente de 14 anos pode desviar-se do esperado, sendo um comportamento mais sugestivo de sofrimento psíquico. O seguimento desses pacientes pode auxiliar o diagnóstico ainda precoce conforme se acompanha o desenvolvimento do indivíduo e a evolução dos sintomas.

Transtornos Mentais em Crianças e Adolescentes

Os transtornos mentais na infância e adolescência representam uma importante causa de incapacidade e sofrimento. Tais condições tendem a persistir ao longo do tempo, sendo que a maior parte das pessoas na idade adulta já apresentava sintomas ou diagnósticos psiquiátricos na adolescência. Segundo a OMS, metade de todas as condições de saúde mental começam aos 14 anos de idade, mas a maioria dos casos não é detectada nem tratada. Os transtornos emocionais em geral podem ser profundamente incapacitantes para o funcionamento de crianças e adolescentes, afetando expressivamente seu desenvolvimento.

Em todo o mundo, o transtorno depressivo é uma das principais causas de doença e incapacidade entre adolescentes. A depressão é a 9ª causa de incapacidade nesse grupo, e a ansiedade é a 8ª principal causa. Além da depressão ou da ansiedade, os adolescentes também podem sentir irritabilidade, frustração ou raiva excessivas. Os sintomas podem se sobrepor em mais de um transtorno, com mudanças rápidas e inesperadas no humor e explosões emocionais.

Outro ponto muito importante a ser destacado é o suicídio. Essa é a 3ª principal causa de morte entre adolescentes de 15 a 19 anos. Novamente segundo dados da OMS, estima-se que 62 mil adolescentes morreram em 2016 como resultado de autolesão. As tentativas de suicídio podem ser impulsivas ou associadas a um sentimento de desesperança ou solidão. Certamente, os fatores de risco para o suicídio são multifacetados, incluindo o uso nocivo de álcool, abusos na infância e o estigma que dificulta a busca de ajuda.

Dentre os principais transtornos mentais específicos que acometem crianças e adolescentes, podemos citar: como já dito, os transtornos depressivos e de ansiedade, além do transtorno de déficit de atenção/hiperatividade (TDAH), transtorno do espectro autista e transtorno de conduta.

Por fim, pode-se destacar que, para promover a saúde mental de crianças e adolescentes, é fundamental estar atento às necessidades desse grupo da população, respeitando seus direitos, ajudando-os a construir resiliência para que possam lidar com as situações adversas de suas vidas.

Referências bibliográficas:

  • Lucion MK, Filho JGA, Isolan LR, Kieling C. Capítulo 27 – Transtornos mentais na infância e adolescência. In: Mari JJ, Kieling C (editores). Psiquiatria na prática clínica. Barueri: Manole, 2013.

Entre tantos, por que você?

Precisamos celebrar o amor! Estávamos em um contexto de recomendações de isolamento social e nos debruçávamos para compreender o impacto disso sobre nossas relações.

* Por Diana Lopes

Entre tantos, por que você?

“A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida.”

Vinicius de Moraes

Em um outro texto do nosso blog, há um ano atrás, propus um convite: Precisamos celebrar o amor! Estávamos em um contexto de recomendações de isolamento social e nos debruçávamos para compreender o impacto disso sobre nossas relações. Havíamos sido expostos a descobrir novas maneiras de amar e de se sentir amado. Agora a situação pandêmica está diferente, ainda que tenhamos que nos cuidar (recomendo o uso de máscara), estamos nos encontrando mais, nos reunindo para dançar, ir a shows, bater papo nos bares, em festas e até nos abrir para mais encontros afetivos-amorosos. E como nos tornamos uma pessoa especial para a outra? E como a outra pessoa se torna especial para nós?

Na verdade, não há qualquer resposta precisa sobre isto. Mas não é fascinante pensar sobre isto? Fico imaginando, dois estranhos que são de origens interpessoais bem diferentes, de diferentes contextos, de diferentes gerações, que se comunicam de maneira diferente, muitas vezes de diferentes culturas, de personalidades diferentes, que se relacionam de maneira diferentes, com experiência pessoal mais ou menos organizada, se encontram e os olhos brilham, sentem as famosas “borboletas no estômago”… Pronto! Aconteceu! Dois estranhos reconhecem a singularidade do outro.

Estudos sobre o apego em adultos mostram que este encontro e o reconhecimento do outro não ocorrem completamente ao acaso. Existe uma organização ideoafetiva que reconhece algumas características do outro como significativas. Ih, desculpe se acabei com a magia do encontro. Tenho esta tendência (ou mau costume) de buscar explicações em estudos e teorias para os fenômenos que me despertam interesse e curiosidade. Mas nem tudo está perdido, posso garantir que compreender isto não afetará o encantamento de sua experiência ao encontrar sua pessoa especial.

Apaixonar-se envolve diferentes áreas, da atração física até a ternura amorosa que se desenvolve pouco a pouco, e implica que os membros do casal começam a se remodelar para se manterem juntos. Então, os dois estranhos, com histórias bem diferentes, passam a se articular e reinterpretam suas memórias para reconstruir um presente, dão um novo sentido ao passado e se projetam para realizar juntos um futuro. Podemos dizer que este é o processo de recíproca intimidade, esta experiência resulta em coordenação afetiva, emocional, influencia os ritmos biológicos e a alta intensidade desses sentimentos nos deixa no estado de apaixonados. Aos poucos, identidades pessoais distintas passam a se traduzir no relacionamento. Esta “negociação” de identidades pessoais que ocorre no início e no final dos relacionamentos é a grande responsável pela experiência de instabilidade (inseguranças, ansiedades, angústias). Passado este período inicial, essa instabilidade vai se reduzindo e em seu lugar aparece a experiência de exclusividade e integração, que expressa a nossa tradução de identidade na relação. Reordenamos nosso “sentido de si” (ou o “eu”), integrando o outro como unidade. Durante todo o relacionamento nos empenhamos em manter este sentido de pertencimento e exclusividade. Para o sucesso do relacionamento é necessária uma integração mútua entre as identidades.

No entanto, em algum momento isto pode deixar de ser possível para um dos membros do casal…

A possibilidade de separação passa a ser uma solução uma vez que o sentido de si não pode ser experenciado mais com nosso parceiro afetivo.  Tentativas de produzirmos uma mudança como casal podem funcionar, ou podem representar uma medida radical (e insatisfatória), e inviabilizar cada vez mais a tradução de nosso sentido pessoal no relacionamento, ou impedir a tradução do outro. Nessa altura do relacionamento, alternamos entre a experiência de aceitação, como forma de resgatar a relação, às trocas de hostilidades, até admitirmos dificuldades em dar continuidade nas histórias e projetos comuns, e então se instala a dissolução da reciprocidade.

Começa a surgir a necessidade de uma nova história (experiência) para o “eu” e para o outro. Compreender o outro em sua dimensão ontológica nos coloca em confronto com a nossa interioridade. Primeiro tentamos dar sentido buscando explicações no outro, sobre o qual não exercemos qualquer tipo de controle ou acesso. Deparamo-nos com uma impossibilidade de reconhecimento em cada revelação do outro.

Diante da exigência de uma nova articulação sobre o outro, passamos a questionar a nós mesmos, a maneira como nos organizamos, nosso modo de viver e sentir. Uma auto-observação atenta pode nos tornar capazes de acessar aquilo que é possível para entrar em nova fase. Passamos a compreender nosso modo de ver e aceitar que o outro olha e percebe de forma diferente.

Uma via de superação dessas rupturas afetivas é desenvolvermos uma abertura para produzirmos uma versão de nós socialmente, com amigos, família, novos parceiros, novos amigos, etc. É o recomeço, ou pelo menos a possibilidade dele, para a construção de um sentido de autonomia interna. Podemos assumir uma nova perspectiva de nossa identidade pessoal.

Após a experiência de um relacionamento afetivo, ganhamos conhecimento e experiência sobre nós mesmos e a possibilidade de integrar mudanças em nosso sentido pessoal. Aos poucos vamos ganhando uma versão ainda mais encantadora! E isto também nos faz buscar aquela pessoa entre tantas outras, que desperta aquela sensação gostosa de “borboletas no estômago”!

Sugestão de leitura:

Tênis x Frescobol, Rubem Alves

A Pipa e a Flor, Rubem Alves

Músicas:

Travessia, Milton Nascimento

Samba de ir embora só, Teatro Mágico

Bibliografia de referência:

BALBI, J. (2015). “Adolescence, Order through Fluctuations and Psychopathology. A PostRationalist Conception of Mental Disorders and Their Treatment on the Grounds of Chaos Theory”; Chaos and Complexity Letters, Volume 9, Number 2, Nuova Science Publishers, New York.

BALBI, J. (2011). Metarappresentazione affettiva tacita e senso di identità personale. Un approccio alla comprensione delle gravi patologie psichiatriche dell’adolescenza e giovinezza, Rivista di psichiatría. Vol.46, N 5-6.

GUIDANO, V. F. (1992). Il sè in suo divenire: verso una terapia cognitiva post-razionalista. Torino: Bollati Boringhieri.

GUIDANO, V. F. (1988). La complessità del Sè: Un approccio sistemico-processuale alla psicopatologia e alla terapia cognitiva. Torino: Bollati Boringhieri.